KAVISITA, insistência da Angolanidade rizomática na Globalização?
Patrício Batsîkama
Introdução
Cavisita Lemos Santos, uma «marca de angolanidade», como outrora autochamou-se, é juridicamente uma Angolana, mas preferimos aqui tratá-la estéticamente. Ou seja como alguma vez limos «ela é a mulher mais falada, odeiada, idolatrada». Mas antes de tudo, salientemos que a presente abordagem – sucinta mas concreta para um estudo estético – passa a ser a nossa introdução sobre o que a autora pretende com as suas produções.
Não parece cómodo aceitar «re-nascimento» filosoficamente... mesmo que unamimamente seja uma metáfora ou seja maneira linguagética. Será possível nascer, (morrer) e re-nascer? Ou, para mudar o cenário conceptual, como um pensamento morto pode surgir de novo onde foi tido caduco ou «matado»? A pesar de colocar a pergunta de forma um pouco desinteressada, convém para melhor entender consideramos dois polos específicos: Cultura Angolana Tradicional[2] e uma Homo Technolocus[3], isto é a íntima démarche de Kavisita. De outra forma temos chance de assistir aqui a uma propósta do Renascimento e não algum Conservadorismo da Cultura Angolana.
A velocidade da mundialização, drasticamente ligada a ciência tecnológica que determine doravante as verdades de outras ciências, faz com que entre uma BMW e um tipoyi, o homem moderno prefere naturalmente a primeira; a industrialização pré-definida pela tecnologia avançada é preferida pelo qualquer país do que uma produção artesanal; do mesmo modo, a globalização primando na racionalização permite que até o mais «tradicional» faz recurso a ela, para evidenciar a sua cultura ancestral: telvisão por exemplo. Pois é nesse ambiente nocional que, antes de mais, é preciso emoldar a «démarche» da Kavisita para melhor entender como localizá-la no xadrez da globalização que vivemos em Angola.
Ela sugere a «preservação do património cultural» de forma inteligente e didática como base para salvaguardar a angolanidade na globalização: 1) um pires com Samayonga; um copo com motivos decorativos Mucubal; 3) um lençol com motivos ancestrais Kimbûndu, Côkwe ou Kôngo, 4) chinelos com desenho de Cibind Irung, ou uma máscara angolana da iniciação; 5) etc. Tal forma permite a criança ter contacto factual com esses desenhos de forma directo, o que poderá a sua coriosidade ser satisfeita na escola ou no meio familiar. Numa outra linguagem, bem que inciativa pessoal, seus «afazeres» passam logo duma propósta quanto a introdução preconsciente da História da Arte na criança. Isto é, dum lado. De outro, a criança crescida amará naturalmente aquilo que lhe marcou na sua tenra idade, além de quando estudar efectivamente a História da Arte sentir-se mais empenhado, e se por acaso, assumir algum dia uma função social não hesitará valorizar ainda mais o que é dele perante a luxosa globalização tentadora. E se por aventura, for cientista, poderá por exemplo modernizar os jogos ancestrais (no computador), ou aproveitar da cultura tradicional duma outra forma científica e porque não identificar a sua funcção social ou psico-social.
Da intensão angolanidadeistica rizomática[4] Nas minhas escritas sempre distingui angolanidade apriorística dum lado e de outra angolanidade aposteriorísica. acompanhando Kavisita estéticamente, descobre mais uma angolanidade que a autor, talvez esteja perta para definir nos expor melhor nos seus trabalhos vindouros. Trata-se de uma angolanidade rizomática. É rizomática não somente porque baseia-se nas raizes, mas sobretudo caso os Angolanos poderem melhor demonstrar nas suas diversas modalidade (música, teatro, etc.), tal angolanidade parece-me mais uma das propóstas mais original e desafiadora da globalização.
A razão da Globalização é que os Estados globalizados (unidos uns aos outros) poderão resolver seus diversos problemas de forma eficiente. Ora uma angolanidade rizomática requer uma série de condições á existentes. Por exemplo, percebi-me que, depois da laboriosa concepção das suas peças, essas são produzidas além-Angola. O que me parece contrária quanto a sua intensão filosófica. Para que procura «resgatar» a sua ancestralidade, obviamente que seu discurso seria «criar consições da industrialização qualitativa» onde seus conceptores-cridores existem.
Da industria artesanal
A vida é um duelo de interesses. Vivemos numa Era de autoconhecimento de forma que o homem se preocupa mais pelas causas concretas das condições da vida tal como a percebemo-la através de cincos aparelhos físicos da sensibilidade. Com Kavisita, encontramos a discrepância entre «fazer arte» e «querendo fazer arte». É um processo estético que se realizar quando se egoista o tempo filosófico[5]. Os seus novos trabalhos explicam-no bem pela sua excepcionalidade das temáticas contemporâneas e o modo da suas corporizações, como se começava o tempo do mundo caducado.
A criação vem da liberdade das suas formas interiorizadas pelo autor e ideias materilizadas. Em Kavisita, embora encontremos reprodução daquilo os nossos ancestrais teriam criado, nota-se uma intensão estética que é de fazer «reviver» a Angolanidade rizomática através dos objectos actuais: isto é, para viver o homem deve satisfazer as suas necessidades na alimentação, vestuário, habitação e só poderá alcançá-lo criando uma vasta utencilhagem cómoda para tal. Ora, a obra kavisita sendo utilitário faz-nos sentí-lo. O conjunto disso explica a sua intelectualidade e o empenho da decoradora Kavisita com elementos antropológicos[6] angolanos faz-nos entender as dimensões da sua vontade para uma «industria sur-place», algures em Angola. Será isso algum chauvismo cultural ou seja ancestralismo? Eu prefiro falar de horizontes existencialistas kavisitas
Horizontes existencialistas
As fontes das obras kavisitas se resumem numa só expressão: angolanidade rizomática. Essa angolanidade pode ser confundida com chauvismo cultural ou seja ancestralismo. Começamos com o primeiro. Definimos chauvismo cultural como «patriotimo cultural exagerado que implica por conseguinte alguma exclusão aos outros valores culturais de extensão universal». Será isso kavisita[7]? Numa primeira olhada trata-se dum «patriotismo cultural», mas ultrapassa as fronteiras patrióticas: as obras kavisitas facilitam uma comunicação aberta e inclusa no sentido que a pessoa em contacto o nota inderectamente. Por exemplo, hoje em dia todo homem globalizado utiliza o «pires», lençol, etc. quer seja em Angola quer em China, e é através desses que Kavisita imiscue a essência das suas obras.
Ancestralismo? Dificilmente acredita-se nas invensões da autoria dos Africanos. Estanho ainda é ver os Africanos se negarem entre eles, um e outro, por razões pseudo-científicas[8]. Tudo foi mistificado sobre/em África. Depois das ciências explicar que África também terá possuido a sua História própria assim como suas civilizações, as obras kavisitas lembrem-nos com humilde evidência a «estética angolana». E com orgulho, dir-se-á que os Angolanos também produziram obras fantásticos e relevantes. Tal démarche, mesmo se for chamado ancestralismo, é «acto de louvor».
Ancestralismo é uma cultura[9] actual na qual se vê as características pertencendo as gerações anteriores. Constantemente é tido como ultrapassado. Até que é difícil ascendentes e descentes viverem as mesmas realidades com as mesmas condições e circunstâncias. Dai, o ancestralismo seria realmente caduco. A obra kavisita reza uma outra versão: das realidades existentes, nada perdermos as herânºas dos nossos precedentes. E não devemos perder de vista que existiu a «colonisação» que era uma administração para «civilizar». Ora, para tal acto, procede de maneira seguinte: «elimina-se primeiro a barbaridade» e depois «implanta-se a civilização». E ficamos sem passado... Que perigo! «Um povo sem história está condenado a reviver o seu passado». É nesse sentido que ancestralismo kavisita ganha sentido de ser. Aliás é por isso que Nicolas Chauvin[10] foi louvado! E porquê não o patriotismo cultural kavisita!?
Filiações humanistas
Antes de parafrasearmos essa angolanidade rizomática no processo na Globalização, notemos primeiros alguns aspectos que têm a ver com as «filiações humanistas», tendo em conta os aspectos negativos da Globalização.
Olivier Dollfus, professor de geografia na universidade de Paris VII- Denis Diderot, escreve na sua obra «Globalização» o seguinte: «o mundo é, pois,ao mesmo tempo, a diversidade de situações no meio das tensões e a aparente homogeneização através de algumas grandes infra-estruturas ou através da difusão de alguns produtos da massa, das calças de ganga ao computador, ou de modas e mesmo de uma língua, inglês»[11]. E mais além o autor previne: «nesta onda de impressões contraditórias, informações dispersas e limitadas, é preciso «guardar a razão»...isto é, ter um olhar crítico, mas mais consciente do mundo tal como o podemos conhecer»[12].
Detrás da globalização efectiva-se uma «colonização incolor» dos espiritos. Se África foi mistificado pelos «rumores», e que depois da Conferência de Berlim em 1884-1885 foi sistematicamente explorada[13] economicamente, desta vez está alinhada uma «colonização psicológica». Vou tentar exeplicar: envidar moralmente algém é lhe dar a educação. E a dívida moral é aquela que não tem preço algum. E África tem dívida moral pelo faco de receber a sua educação da colonização. David Martelo o explica na sua obra intitulado «As mágoas do império[14]», uma reflexão sobre o fim do império português e insistência do Portugal no relacionamento estratégico com PALOP.
A obra kavisita[15] é uma tentativa de medir a distânca que existe entre o modernismo e o tradicionalismo ou seja a modernidade e ancestralidade, mas numa modalidade bem específica: decoração[16]. O que pensemos ser «moderno» hoje passa imediatamente «tradicional» no dia seguinte. Ora dado que nenhum homem consegue ser homem racional sem uma experiência antecedente (aprender a falar, se comportar por exemplo), Kavisita tenta nos transmitir através das suas obras (decoração e outras), que é impossível que o ser humano seja desprovido da inteligência: que realmente, tal como o dissemos já atrás, os Angolanos antes da colonização eram de facto artistas (pensadores).
Depois das cheias em Angola, Kavisita terá participado no apoio das vitimas, e é dali que pude entender as suas filiações humanistas difícil por descobrir nos traços da sua personalidade.
Será angolanidade Kavisita alguma ousadia dos Angolanos? São os Angolanos que melhor poderão responder a essa pergunta dando atenção às «criatividades» kavisitas. Assim esperemos.
Bibliografia
1) ABRANCHES H., Reflexões sobre cultura nacional, UEA/Estudos, Luanda, 1980;
2) ALLIER, R., Le non-civilisé et nous. Différence irréductible ou identité foncière, Payot, Paris, 1927;
3) BATSÎKAMA P., African Nostalgia in Modern Arts: the case of Kôngo and Tshôkwe, Dexter, Plymouth, 2002;
4) COLLEYN J.-P., Eléments d’Anthropologie sociale et culturelle, Ed. de l’Université de Bruxelles, 2è édit, de 1981;
5) DEWEY John, Art as experience, Perigee Books, New York, 2005, viii + 371 pp;
6) DOLLFUS Olivier, Globalização, Publicações Europa-América, Lisboa, 1999;
7) HEGEL G.W.F., Estética, contendo as lições de Estética que Hegel proferiu entre 1920-1929, em Heidelberga e Berlim, In Folio Guimarães Editores, Lisboa, 1993, 677pp.
8) GRUET, STÉPHANE, L’oeuvre et le temps. I, Le mouvement et la forme: meta-physique, Éd. Poïesis-AERA, Toulouse, 2005;
9) KANDJIMBO L., Apologia de Kilatangi. Ensaio e critica, INALD, Luanda, 1997;
10) LIVINGSTON Paisley, Art and intention: a philosophical study, Clarendon Press, Oxford, 2005;
11) MONTESQUIEU, Do Espírito das Leis, (Texto integral), Martin Claret, Lisboa, 2003, 727pp
12) PLATÂO, A República, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2001
13) REYNOLDS D., Symbolist aesthetics and early abstract art: sites of imaginary space, Cambridge University Press, Cambridge - New York, 2005;
14) RUBINSTEIN S. L., O ser e a Conscência, Portugalia Editora, Lsboa;
15) WILLET F., African Art, Thames & Hudson/World Art, London, 2002
[1] LIVINGSTON Paisley, Art and intention: a philosophical study, Clarendon Press, Oxford, 2005. [2] Isto é conjunto de hábitos forjados pelos ancestarais. Desde a alta antiguidade até seculo XV quando Angola foi descoberta. Daí andiante, forjou-se uma outra cultura influenciada pelo contacto europeo que no entanto não deixa de ser chamada tradicional com «neologismos» consideráveis. Aliás, a cultura do seculo passado passa notoriamente a ser tradicional em relação a do actual século, moderna. Vide a introdução do nosso trabalho de licenciatura: African Nostalgia in Modern Arts: the case of Kôngo and Tshôkwe, Dexter, Plymouth, 2002. [3] Quer dizer um pessoa que vive na Era de grande tenologia, do Século XXI. [4] Favor de acompanhar a nossa dissertação com livro de Rubinsteins S. L., O ser e a Conscência, Portugalia Editora, Lsboa. [5]Gruet Stéphane, L’oeuvre et le temps. I, Le mouvement et la forme: meta-physique, Éd. Poïesis-AERA, Toulouse, 2005,pp.57-79. [6] Por elementos antropológicos, entendem-se «elemtos antropológicos culturuais», sabendo que também existem «elemento antropológicos sociais» e «elementos antropológicos físicos» ou ainda «elementos antropológicos religiosos».. Vide ColleynJ.-P., Eléments d’Anthropologie sociale et culturelle, Ed. de l’Université de Bruxelles, 2è édit, de 1981. [7] Aqui o termo kavisita em miniscula significa a obra de Kavisita e pode ser decoração interior, lençois, pratos, etc. [8] Muitas vezes por razão de ciume ou de antipacia. E mistura-se tudo argumentando persuassivamente. [9] A cultura pode ser material: copo, estatueta, cadeira, guitara; ou seja intelectual: marxismo, recours à l’autenticité; etc. [10] É desse soldado de Napoléon que nasceu o termo «chauvinismo» [11] Dollfus O., Globalização, Publicações Europa-America, Lisboa, 1999, p.13 [13] Vide com mais pormenorees a obra de Allier, R., Le non-civilisé et nous. Différence irréductible ou identité foncière, Payot, Paris, 1927. [14] Martelo D., As mágoas do império, Europa-América, Lisboa. [15] A meditação sobre a exploração económica é estudada pelos economistas, com seus princípios e métodos. Os agentes da cultura, também, é estudado pelos filoósofos, antropólogos, etc. Mas para quem utiliza a fantasia (artista: músico, coreógrafo, etc.) é preciso um estudo estético ou filosófico para tal. É dai que podemos notar que as propóstas kavisitas perante a «lavagem cultural» são, assim como outra propósta artistica, de extrema importante na confirmação da identidade. [16] A decoração pode ser interior como exterior. Também a decoração na utencilhagem utilitária (copo, faca, garfo, etc.). É a parte-base estética de designer, assim lemos na Catálogo geral da Bienal Dak’Art 2004.