Etonismo, porque que não?
Resposta a Antonio Conceição Tomás do Jornal Angolano ANGOLENSE do Sábado 24 de Setembro 2006
Patrício Batsîkama
De acordo com Antonio Conceição Tomas (adiante ACT), «Etona incorre num erro gramatical, ao confundir substantivos com adjectivo» porque os «Artistas que se distinguem nas suas actividades podem emprestar os seus nomes a adjectivos que os distingam os seus estilos».
Antes de tudo, comecemos por dizer que a pessoa que forjou o termo «etonismo» chama-se Patricio Batsîkama. E informamos que, Etona não defendeu filosoficamente o etonismo durante a comunicação, contrariamente ao que escreveu ACT.
Por «erro gramatical» entendo «engano lógico». Ora, na linguagem filosófica, utiliza-se Gongórico, Confuciano, Kantiano, etc. como adjectivos para indicar a «indiossincrasia». Isto é, os sufixos significam «relativo a». Razão pela qual, as expressões como 1) «linhas gongóricas» e as «linhas gongoristas», ou 2) «visão confuciana» e «visão confucianista», ou ainda 3) «maiêutica kantiana» e «maiêutica kantista» tem diferentes sentidos. A concanetação dessas expressões indica clara e simplesmente que as primeiras são «relativas a pessoas» enquanto as segundas implicam a priori alguma teoria específica fundada por Gongora, Confucius e Kant.
Não há dúvida que uma vez que as obras de Hemingway são teorizadas, nascerá o a posteri «hemingwayismo» sem chocar ao filósofo que melhor o entenderá, porque indica o «circlo identitário onde a personalidade e objectivismo estão convergindo». Em princípio, assim ensina o estruturalismo linguístico, o sentido primordial dá sempre sequência aos secundários divergentes ou convergentes. Dai, o valor semantico de «ismo» constamente balizado a «doutrina». Isto é porque a «doutrina» compromete uma sistematização, uma teorização dum conjunto de coisas ou principios. Dai, o sufixo «ismo» para indicar a «ideia dum conjunto sistematizado ou teorizado de principios, ou coisas».
Por essa razão os adjectivos como «etoniano», «gumbiano», «viteixano» poderão justificar alguns aspectos inerentes a personalidade, isto é ao organon de Etona, Gumbe, Viteix sem ter em mente a ideia de sistematização ou teorização alguma das suas profissões. O «ismo» entrará em vigor uma vez que as expressões pictoriais são teorizadas e apresentadas científica ou filosófica ou política, ou até religiosamente.
É ignorância dizer que a formação dos conceitos resume-se a adjectivos e nunca a substantivos. O signifié e o signifiant de Ferdinand De Saussure o contradiz largamente: Gongorismo, Confucianismo, Gaulisme, Planismo, Aristotelismo, etc.
É ilógico dizer que o «ismo» é negativo quando é associado aos nomes de pessoas, tal como «salazarismo», «castrismo», etc. Se o «salazarismo» é tido negativo por uns, não seria o caso por aqueles que o sustentaram. «Castrismo» tido negativo por Americanistas, Ocidentais ou outros, não é tão «péssimo» para muito Cubanos e alguns Angolanos (castrofiles) formados
Pois como podemos sentir, estamos perante uma «pertubação lógica», dado que ignoremos a textura epistemológica da ciência. Francisco Sanches define, a ciência como «conhecimento perfeito do assunto» que é preciso balizar «principios, métodos, ferramentas e criteiros próprios». Quer dizer que jamais um Médico fará operação cirúrgica ao «ritual Cikumbi», nem sequer o mecânico abrirá o «motor humano». Por isso, aconselho qualquer outro interessado a fazer «releitura» do etonismo, optar doravante a delimitar a sua linguagem e seu diágnostico na filosofia (de Arte) ou melhor a estética. Porém, é acientífico que nele se faça já uma «crítica histórica», dado que essa se fundamenta na «longa duração». Os Historiadores de Arte deveriam ser atentos as vecessitudes históricas que etonismo poderá fomentar e, a partir dai, fazer «critica». Assim por exemplo, as suas demarches sobre os «5 Cubanos». Ou talvez o seu impacto na «Nova Angola». Pois assim, evitar-se-á atropelos e uma gnosiologia comparativa tão prematura de ideia e facto. Ora, pode-se criticar a própria filosofia se puderem.
É verdade, há mais de 50 ou 70 anos que somente depois da morte que o nome era levado a teoria. Também encorajo Etona a trabalhar sem menor atenção as «makas». Também é verdade que a estética fornece hoje as ferramentas para teorização. E Angola preciso disso! O IIIº Simpósio tinha por objectivo de salvaguardar o Património Cultural. Museologicamente, Viteix, Rui Matos, Kabissi já falecidos, tanto como Masongi, Gumbe, Van ainda vivos consituem o «património cultural contemporâneo» enquanto obras. Não é segredo, essas são melhor compradas pelo estrangeiro. Logo, somos forçados a reviver a mesma História dos nossos Ancestrais cujo património abunda museus estrangeiros! Como salvaguardar? Teorizando, para mais tarde encorporar no ensino: é interessante ensinar Da Vinci a um Angolano, portanto seria salvaguardar o «património cultural» lhe ensinar Fernando Alvim, p/exemplo. Inevitavelmente, será preciso teorizar, caso se prevê um Museu de Arte Contemporâneo! Dai, a minha próposta de «etonismo» para o III Simpósio que alguns «donos da razão» do MiniCult teriam programado para o meu silêncio durante o invento. Ô Nzâmbi, até quando a ignorância?!
Focou-se também o caso de Marx que depois de ouvir o «marxismo» terá ido a rua reclamar que se existissem os «marxistas», ele não fazia parte deles. Interessante História! Só que não se teria passado da forma que o conta ACT. Todo mundo sabe que Karl Marx foi o revolucionário que nem medo de Deus tinha, ao escrever: «vou me vingar contra Aquele que reina acima de nós», ou quando adultera a oração «Nosso Paí». Como poderia ele, «ir a rua» se contrariar? Narrando a História dessa forma, falsificámo-la. «Das kommunistische Parteimanifest (1848)» escrito por ele e F. Engels contradiz categóricamente a versão (boato) citada por ACT. O que teria sido é: depois dalgumas insureições burguesas, obvios resultados das suas ideias, Marx sentiu-se obrigado a eclarecer aos trabalhadores (homens da rua) que as suas ideias eram adulteradas. De quem teria ele medo? Não se argumenta apenas um parágrafo, o que ACT fez. Aberração!
Para finalizar, digo eu que apesar duma grande positividade, o III Simposio era simplesmente um «acto político». O simpósio é em principio científico. Entendo perfeitamente os gastos que o Ministeiro teria feito, mas aconselho melhorias nos próximos. Eis a razão pela qual a jovem Yara Simão – e tantos outros – não pude mergulhar a essencia do Simpósio. Logo, não poderia Antonio da Conceição Tomás perceber melhor o objectivo da comunicação do «etonismo» dado que ele se baseia numa informação já adulterada, deturpada e prazendeira. Evita as informações da segunda mão, isto é falta de profissionalismo.