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Filosofia da Razao tolerante

 
 
Etonismo, filosofia da razão tolerante.
 
 
Patrício Batsîkama.
Etomilogicamente, o termo etonismo deriva do antropónimo «Etona» que significa bandeira, marca, evidência, razão em Kikôngo. Esse termo tem uma variante Umbûndu: etonolo ou etonuilo que significa exactamente, alegações, razões, indulgência (tolerância). Com esses sentidos, a forma Nyaneka é etŏnya. Essas significações constituem a essência do etonismo: 1)razões, 2)alegações, 3)indulgência, 4)evidência que gerem a 5)justiça e a tolerância. Assim também é o caso de ezungo ou etote, kidimbu em Kimbûndu
 
Para melhor entender o sentido da razão que pretendemos apresentar, fazemos intervir primeiro a verdade. Na História das ideias, a Razão não se pode estudar na sua essência sem ter em conta a noção da verdade.
 
A palavra verdade deriva do latim vērĭtās, termo que significa «sinceridade consigo próprio», ou seria exactamente a adequação entre a realidade e o homem que assim a pensa. Por conseguinte, toda verdade é subjectiva.
 
Nas «ideias latinas» que herderam línguas europeias, a razão é a relação (método) que existe entre as verdades (cálculo). No mesmo sentido designa o exercício que implica a dita relação. Em relação as línguas angolanas, essa razão latim parece concisa. Em kikôngo, a razão pode ser dita etona, cuja variante Umbundu etonuilo, ou esangu, ou ainda etŏnya em Nyaneka e Kyaka. Dai, a nossa «preferência» a etona por duas razões: 1) sendo o alcunha do artista plástico, o termo se enquadra perfeitamente com a sua technikê – prática que ao teorizar chamamos etonismo. Substancialmente, a razão quer latina tanto como angolana é objectiva e corrobora nas melhores condições com a sua prática 2) por razões de concordância morfo-semântica, etonismo parece ter mais lógica(sic!).
 
 
Quadro lógico.
Na publicação de «Etonismo, estética de ruptura», explicamos resumidamente o enquadramento lógico da prática do Antonio Tomas Ana «Etona» consoante a semiótica pictorial e escultórica. Na sua escultura notam-se morfologicamente três tratamentos na superfície da matéria, nomeadamente1) tratamento liso; 2) tratamento bruto e finalmente 3) tratamento acidental. Na pintura, nota-se tambem as tres tonalidades. Cada um(a) é alguma codificação.
 
É a partir dessa prática que se fundamenta o etonismo não apenas como uma filosofia artistica mas sobretudo, como o criteiro da própria filosofia (da razão). Epistemologicamente a razão latino-angolano é trifacial sendo património de todos ao mesmo tempo. Basicamente, os elementos cognocíveis do etonismo (doutrina da razão) são tri-tratamentos escultóricos e/ou tri-tonalidades pictócticas. No entanto a essência da sua lógica trivalente ultrapassa o cunho artístico, expandindo-se tal como estipula a lei de transmutação do objecto percebido/objecto pensado, da concepção para interpretação num espaço estético para um tempo filosófico. O «espaço» e o «tempo» sendo aqui duas extremidades que condicionam a sua descodificação, razão pela qual o primeiro é estético e o segundo filosófico. Explicamos.
 
No sentido kantiano de espaço e tempo servimos da essência epistemológica da «razão» pondo em paralelo com a semântica filosófica do termo-raíz angolano ‘etona’. Tudotem princípio, por isso desenhei o quadro lógico do etonismo servindo das obras do Etona (Escultor e pintor) como suporte. Tal como na sua Sexta Meditação, Descartes nos faz melhor entender quando distingue a «pura intelecção e a concepção da imaginação. Quer dizer conceber no espirito e o imaginar vinculado no corpo». Porém, dizer que etonismo se baliza nos afazeres do artista Etona seria impróprio dado que o próprio Etona faz parte dessa tendência.
 
Resumidamente etonismo é o silogismo da razão cúbica, triangular ou ainda piramidal, como alguns defensores o entendem (José F. Lumango, por exemplo). Essa se assenta na permissível hibridação de três verdades subjectivas. Genericamente existe: 1) a minha verdade, 2) a sua verdade, 3) a verdade dele. Sendo assim, etonismo é não obstante um entimema essencialmente paradigmático.
 
Essência do Etonismo
Homem nasce egoista por natureza, e não pode viver isolado da sociedade que lhe produz. Ora a sociedade compõe-se por muitas pessoas. Pois a «essência» da sociedade seria nesse caso a convergência de diversos egoismos, e quando algum egoismo for diconvergente, é tido como marginal e conduzido na reeducação (prisão). É nessa ordem que o etonismo baseia-se em «razões, alegações e indulgência que gerem a justiça», tal como etimologicamente o interpretam melhor as línguas angolanas.
 
1) Razão, Razões
Tal como o mostramos logo no princípio, a razão é a capacidade de raciocinar estabelecendo relações lógicas. Raciocinar duma e outra forma é tão normal para o Ser vivo. Mas «estabelecer relações lógicas» requer mais «ingredientes intelectuais».
 
Existe sempre mais de um tipo de Homem, e o etonismo estipulam canonicamente três. Começamos por «Conhecedor de causa», «Autodidata», «Empírico». Quem entre os três pode ter razão num debate? Obviamente o Conhecedor vai prevalecer, depois o Autodidata e finalemente o Empírico. Portanto entre os três quem terá razão? Ou existirão três razões?
 
O empirismo é perante o conhecimento de causa, o ponto de partida dado que a experiência (empirismo) é a génesis da ciência. Por isso, portanto, o Conhecedor precisa ineluctavelmente do empirismo para realmente ter um conhecimento de causa, sendo o autodidato o ponto epistemológico entre os dois. Nessa ordem de ideia, a semântica «etona-etonuilo-esangu-etŏnya» estipula razões em plural que implica a comparticipação de três.
 
Exemplo: é de conhecimento geral que a Guerra em Angola está praticamente acabada. Os Angolanos terão utilizado a inteligência oriunda dos seus Ancestrais com ajustos contemporâneos. Apesar de «ultrapassar» a guerra parricida em nome do Governo, não se excluiu os outros pólos políticos. Pelo contrário, o seu plano assente na interindependência e comparticipação políticas dos vencedores (nesse caso Governo), vencidos (UNITA militarista) e observadores (outros partidos políticos). Dai, não há vencedor no sentido estricto do termo. Na verdade, essa forma de proceder – impar em África, temos que reconhecer isso – pertencia aos Angolanos antes da descoberta pelos Português: do reino Kôngo ao dos Umbûndu, do Atlántico aos confins do Kwângu, isto é etona, etonolo, etŏnya, etc. Quer dizer, razão que gere justiça e tolerância, ou especificamente dito etŏnya, alegações no plural.
 
2) Alegações
Hoje em dia, em Direito, alegação é «exposição oral ou escrita em que o advogado fundamenta o direito do seu constituinte e impugna as razões aduzidas pela parte contrária, retirando dai as consequências jurídicas decorrentes».
 
Utilizamos alegaçõesetŏnya – tal como antigamente se fazia. Nos Nyaneka por exemplo, era o discurso feito pelo advogado afim de pedir desculpas ao vencedor com objectivo de manter uma reciprocidade contínua. Nos Umbûndu etonolo também consistia em escusa, isto é «desculpa apresentada para justificar validade da sua derrota». Vamos explicar melhor. Entre os Umbûndu, Cokwe, Kôngo num processo judicial, o «vencedor» e o «derrotado» fazem mutuamente etona, etonuila, etŏnya – desculpas. Isto é, para conservar a união comunitária que não pode ser desfeita. De tal maneira que mesmo o derrotado alega-se de ter «menos» razão, apesar do vencedor ser conhecido como a pessoa que mais tinha razão. Razão pela qual em línguas angolanas, entende-se esse termo em plural. O nosso país deu exemplo disso politicamente.
 
O grande filósofo Jesus aconselha «amar os inimigos». Alegações seriam, comporando com esse conselho, outra forma de amor fraternal que deve prevalecer entre os constituintes. Pois isso gere a tolerância: uma razão tolerando, digamos assim, uma pseudo-razão.
 
Resumidamente diremos que se trata aqui de filosofia da razão fundada nas verdades subjectivas seguidas de alegações mútuas com objectivo de coabitação contínua e tranquilha: a razão vencedora tolera a pseudo-razão derrotada.
 
 
3) Indulgência e tolerância
Entre os Angolanos (Umbûndu, Kimbûndu, Côkwe, Kôngo) quando alguém comete um crime, deve ser obrigatoriamente enviado num sítio isolado para a sua reeducação. Ao voltar, e antes de ser reintroduzido na sociedade, o seu advogado deve fazer o etona, etonolo, etŏnya, etote – que é indulgência: pedido de perdão do pecado cometido e reparado. Nesses termos os Anciãos devem também aceitar de volta o reeducado, em testemunho do advogado e os observadores. Isto é, devem tolerar. E semanticamente, a palavra etona contem esse valor.
 
Podemos até então dizer que o etonismo é a inclusão «sem choque» de três razões oriundas de fontes diamatralmente distinctas cuja coalição se fundamenta essencialmente nas suas alegações mútuas, e sucessivamente, pela indulgência de forma que a razão mais forte tolera a pseudo-razão.
 
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O
<br /> <br /> De facto! temos que defender o Etonismo, e, é muito bom quando temos para tal uma esplicaçao técnica e cientifica.<br /> <br /> <br /> <br />
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