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Teatro: arte ou filosofia?

Teatro: arte ou filosofia?

Tal pergunta impõe uma dissertação principiada pela tripla pergunta: o quê é teatro? O quê é arte? E o quê é filosofia?

 

 

Teatro

 

Na opinião de Aristóteles, conferir o seu livro a «Poética», existe três versões sobre a origem do teatro: 1) o teatro terá surgido das celebrações e ceremónias à Dionísio por ter oferecido a humanidade algo que lhe permite ascender a divinidade: vinho. De facto, o acto de embreaguez, ainda menos explicado naltura, foi atribuido a uma magia própria de Dionísio para permitir os Homens atingir a divinidade. Nisso, o gosto ou seja o paladar do vinho sendo irrestistível para os Gregos antigos, criou ansiedade (para já natural) assídua nos participantes das ceremónias de vinho ou seja a dramatização a respeito de peripécias de Dionísio. Na verdade, trata-se aqui de «drama»; 2) a origem  pode ser explicitada em mistérios de Eleusis. Quer dizer o cíclo da vida: nascimento, crescimento e morte, com elemento de destaque como a «Semente». A terra foi tida como a Grande Deusa ou seja a Mãe Terra, mas para tornar funcional a vida (cíclo vital), foi necessário a acção do Homem: Semente. Isto é, para mulher engravidar, foi necessário a semente do Homem ou seja para a Terra produzir, também é necessária a acção do Homem: Semente. Nem com isso os mistérios de Eleusis foram satisfatoriamente explicitados; e finalmente 3) o teatro (como tragédia) terá surgido junto com a homenagem a Heroi Dório Adrausto habilitado com a sua saga. Apesar dos êxitos ele teve um fim funestro, que se traduz em grego por «tragoidia». Logo, Aristóteles chegou a conclusão que a tragédia seria a dramatização da saga de Adrausto, assim como o seu sinistro fim.

 

 

Aristóteles fala da origem da tragédia (a última versão), do drama (primeira) e de comédia/farsa. Ora o teatro hoje é, acima disso, tragicomédia, ópera, musical, etc. e cada um tem a sua origem que Aristóteles não pudia na época explicar. No entanto, com isso, dissemos que o Teatro foi forjando a sistematização da concepção do mundo, tentando dar explicações aos Gregos sobre a verdade e aos «princípios» para entender ou observar a realidade. Isto é, o teatro principiante foi esponta e inevitavelmente acompanhado pela filosofia. Aliás, ler os classicos tais como Féon, República, etc. faz logo entender que os Filósofos utilizaram a «maneira teatral» para passar suas mensagens. Isto dum lado. De outro lado, «Odisseia», «Edípo Rei», «Prometeu Acorrentado», etc. são obras teatrais com bastante valor filosófico.

 

 

A palavra teatro deriva de «théatr’on» que significa 1) espetáclo e 2) edifício simultaneamente. Isto é, não pode exisir de teatro que envolve os dois ao mesmo tempo. Exemplo o edifício teatro Avenida, não é classicamente teatro no momento que não existe o «espetáclo» sob encenação dum corpus de pessoas que integram e se reconhecem como Avenida.

 

 

Arte

 

De acordo com St. Thomas Aquinas: «Art is a human activity directed to the modification of external matter is said to be engaged in a factio (cutting, building, melting, etc.); but when this activity remains within the doer, it is called action (in the restricted sense of the word). Examples of action are feeling, willing, etc. The rational regulation of a factio is art[1]. Art is contrasted with nature in that the latter is a principle of change within the thing itself: a seed grows naturally into a tree because the seed contains within itself the principle of germination. But in the case of art the principle of change is external to the thing: a stone becomes a statue not because of something it possesses but because of an artificial vs. natural»[2].

 

 

Quer dizer, transformer um tronco em leão, e o «actio» ou seja o princípio da arte. Para ser arte (actio+factio) deve conter uma «regulação racional». Lembramos que para o filósofo cristão, essa expressão significa «um pensamento sistematizado». A substância proto-indo-europeu ar-, significa geralmente arranjo, ajustamento, harmonização. Em grego: artyo = ajustar, artios = bem ajustado, areté = virtude. Em latim: ars = maneira de ser, artus = bem ajustado, artare = apertar. Como podemos ver, vindo do arménio, a arte/criação menteve o seu valor semântico nas línguas emprestadoras no sentido que qualquer arte é «algo tido como bem ajustado» mentalmente e «bem feito» na prática ao mesmo tempo. Aliás Baumgarten, Kant, Hegel utilizavam o termo alemão Kunst, isto é arte. Esse termo significa habilidade, vizinho de Gótico Kun-nam (conhecer), Kannjan (fazer conhecer) e inglês know = conhecer. Arte é antes de mais uma filosofia, fez GW Hegel justamente por essa razão.

 

 

Filosofia

 

Pitágoras foi considerado e chamado «sábio», mas recusava que apenas era ‘amante da sabedoria e insistia que sua sabedoria consistia meramente em reconhecer sua ignorância’. Daí, surgiu o termo «filosofo» para Pitágoras e que quase simultaneamente gerou «filosofia» como sua actividade, ou seja aquilo chamamos hoje «ciência». A filosofia procure a verdade, faz entender a realidade a partir dos seus princípios determinadores.

 

 

É evidente que qualquer «filosofia», mesmo for ela natural, exerce uma influencia perante a sociedade. Porque a filosofia em si que é força motrice das mudâncias sociais. A sua concepção e as circuntâncias nas quais ela surge possibilitam isso. Como ensina a História, a Constituição norte-americana terá sido possibilitado pelas concpções do filósofo John Locke substituindo o monarca hereditário por um presidente. De modo igual, as idéias filosóficas de Rousseau orientaram o «grosso modo» da Revolução Francesa do 1789. Aliás, em grande parte, a religião cristã é aquilo que é hoje graças aos filósofos. Islão, de modo igual, terá «agarado» no aristotelismo... uma filosofia...

 

 

A mitologia grega é uma «sópa» tendo como ingredientes principais «teatro» e «filosofia», de forma que não nos surprende na Filosofia da arte, chamar Sophocles, Euripedes, Esquilo de filósofos classicos. Tentaram explicar através da «fantasia» algumas realidades que numa primeira olhada, passava despercebida, de forma que ainda na época foram tidos como os tragidiografos: especialidade que implica basicamente as ferramentas filosóficas.

 

 

Teatro como Arte/Filosofia.

 

Relendo Aristóteles, notemos logo que o teatro é uma arte. Isso originou de Socrates que Platão trata na República como defensor do profisionalismo. Logo, o teatro é uma profissão dos artistas. Se for filosofia, só poderia o ser pela imitação, logo na linguagem e aceitação clássica (socratesista) não será «bemvinda». Isto é dum lado. De outro, pode não o teatro mas sim a arte ser ligada a filosofia e nesse preciso caso, poderá o teatro ser simultaneamente arte e filosofia numa única explicação histórica: a mitologia grega que confeccionou o teatro como arte-mãe utilizou o meio filosófico. O que prova a asserção de Hegel, segundo o qual «toda arte é antes de tudo uma filosofia».

 

 

A concorência angolana

 

A existência duma Escola Nacional de Teatro em Angola, albergada no INFA – futuro IMA – pode providenciar elementos científicos sobre o teatro em Angola. De forma clássica, estamos de comum acordo que, sem omitir a boa intensão do governo, ainda contentemos do vazio que nos cerca. Falta de estudos austeros, de estruturas funcionais, sistematização promocional, ausência de circuitos que possam dinamizar o teatro em Angola.

 

 

De outro lado, notemos uma inegalável e imensa vontade na parte daqueles que, ou impiricamente pratica essa arte, ou daqueles que promovem-na. De forma que, mesmo não beneficiando de cobertura estatal – e, cláro que não pode por causa de ausência de diplomas que aprovam tal gesto – multiplicam nos musseques até dentro do centro das cidades alguns (pseudo-)teatros ou melhor como somos habituados ao chamar, «grupos teatrais».

 

 

Voltando a questão inicial, qual é o visual que Angola dá a respeito do teatro: será arte ou filosofia? Quais são os pontos concretos que provam uma ou outra? Em que medida Angola prevalece a sua marca particular nessa modalidade quer na sua gestão estatal assim como partindo das iniciativas individuais? Qual é, numa primeira mão, o pontapé de saída para o teatro ganhar amplitudes e outros horizontes em Angola e além-fronteiras? Será o teatro tão importante para duma e outra forma contribuir nas resoluções que Angola ainda procura? E se assim for, o quê fazer de imediato?

 

 

Antigamente

 

Um dos critérios básico do teatro clássico é, na sua essencia, a existência do «espaço» que o grupo apresenta o «espetáclo». Antigamente, como já alguma vez o dissemos nesse mesmo espaço do Jornal, os Côkwe, Kimbûndu, Kôngo, Umbûndu, Nyaneka, etc. possuiam seus respectivos espaços dedicados a cada um «espectáclo». Tal como as ceremónias de casamento, de alguma iniciação, de preparação de batalha (ou geurra), etc.

 

 

O segundo critério básico do teatro clássico é, assim o dizia Aristóteles, «educar». Bem que retratados nas linguagens antropológicas, os objectivos principais de «espaço-e-ceremónias» que classificamos como «teatros» eram 1) instruir quer os actores quer os observadores; 2) perenizar a socialização da cultura; 3) evidenciar a grandeza das realizações dos ancestrais. Isso tudo não foge muito a realidade grega que 1) educava, 2) engrandecia a sua cultura e 3) homenajava seus deuses.

 

 

O terceiro critério básico do teatro clássico é a sua metrificação cronometrada. Os angolanos antigamente levava relativamente três a nove dias para realizar as suas ceremónias quanto for a curto prazo. A médio prazo, poderia atingir um mês. E ao longo prazo, razoavelmente cinco a seis meses. Em cada dia são apresentadas determinadas fases, o que pode ser atribuidas à Actos. E, cada fase é composta de «ritos» assimiláveis a cenas.

 

 

O quarto critério básico do teatro clássico, os intervenientes eram realmente profissionais, não tendo outras ocupações secundárias. Os seus respectivos nomes nessa área certifiquem-o.

 

 

Independemente da linguagem antropológica, essas ceremónias passam a ser géneros teatrais. Falta apenas algum estudo de classificação numa linguagem apropriada argumentada asseguradamente.

 

 

Essas ceremónias permitiam que o individuo seja um bom cidadão, respeitando as leis da natureza e usos e costumes, também mantinham um reverência aos ancestrais afim que não haja calamidades ou insucesso. Em resumo, esses «teatros», concretamente, tinha grande relevância no Homem. Suma resumida, o teato terá existido numa Angola antelusitana.

 

 

Hoje

 

O que tem feito do teatro hoje? Para começar, a sua essência perde-se paulatinamente e cada vez mais. Existem algumas centenas de «grupos teatrais», mas pouco chega aos dedos da mão como realmente teatros sendo 1) edifício e simultaneamente 2) o espetáclo. Não vamos aqui insistir sobre as razões dessa escassez. Dum lado o Ministério da tutela justifica-se pela ausência da qualidade, o que é meia-culpa; de outro lado, pouco são profisionais não tendo outras ocupações a não ser aquela. Aliás, já nos pronuciamos naltura de não-premiação do teatro pela PNCA 2006.

 

 

O segundo critério é «educar». A educação é um problema complexo. A história nos aprende Molière e seu teatro a transformar a sociedade francesa; Shakspeare W, de modo igual, exerceu uma grande influência na sociedade inglêsa; etc. Pois coloquemos a pergunta: qual é, em Angola, o teatro que alguma vez deu solução as inquietações angolanas?

 

 

Quanto ao terceiro ponto, é evidente que procedemos por imitações quer de forma tanto como de conteúdo. Já alguma vez imaginamos o Cikûmbi «tradicional» tornar-se um edifício modernizado e simultaneamente como um «corpus» de espectáclo? Pois, talvez nessa vertente, teremos não só contemporaneizado o nosso teatro, mas também será início dum trabalho classico angolano.

 

 

O quarto critério básico é muito simples. Dum lado existem pessoas com vontade, até – ousamos dizer, com dom nessa arte de representar. Quer dizer tem tudo para fazer do teatro seu «mester», ou profissão. Mas como vão sobreviver se o Estado ainda não aprovou (ou talvez ainda não foram elaborados) diplomas para apoios? Tarefa de MiniCult, que requer juristas com «mpûngu». Só por causa disso que pessoalmente, quanto ao primeiro critério, creio que o ministério da tutela poderá antecipadamente disponibilizar fundo de apoios aos contratos austeros que consistem em, por exemplo, construir Edifícios de forma a subvencionar ipso facto o ingresso dos cidadãos pelo facto dos exibidores diminuir o preso de bilhete.

 

 

Resumidamente, o teatro é arte e filosofia ao mesmo tempo quer na realidade grega quer nos padrões angolanos antelusitanos. A colonização introduziu uma nova dança, de forma que, ao detrimento duma «riqueza» que é nossa, preferimos copiar – e geralmente de forma muito desagreável – aquilo que não nos dignifica nem sequer é proveitoso para nós.

 

 

O quê fazer?

 

O Chefe de Estado já o disse na abertura do IIIº Simpósio da Cultura Nacional: «criar e aprovar diplomas...» e essa tarefa é da competênca do MiniCult. A sociedade civil pode duma e outra forma participar, mas sem mecanismos legislativos, será tal gesto confondido à alguma mendicidade. O artistista não é mendingo, a sociedade deve-lhe o que lhe-é justo da mesma forma que se deve ao político. Por isso, tudo deve se fundamentar na Lei.

 



[1] Soblinhado por nós.

[2] Bigongiari Dino, The political ideas of St. Thomas Aquinas,… p.210.

 

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