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DEMOCRACIA CULTURAL

DEMOCRACIA CULTURAL
Patrício Batsîkama 
 
Filosoficamente a Cultura é a totalidade de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural. Logo, ela começa pelo individuo para depois passar à toda comunidade, tal como o entende Edward Taylor (ao falar da etnologia como ciência da cultura): «o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, morais, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade». Democracia é: «governo do povo, para o povo e pelo povo», diz Abraham Lincoln.
 
Ao assumir a «Cultura» no seu plano político, o Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, discursando a abertura do IIIº Simpósio sobre a Cultural Nacional, propõe a «democracia cultural» como modus operandi. Portanto, o que seria a «democracia cultural» no entender do Estadista Angolano, sobretudo quando se trata de orientação presidencial para o Ministério da Cultura?
 
Em princípio, assim ensina a História, a «democracia cultural» implica que o homem, sendo principal criador da Cultura, deve cria-la com toda liberdade sem ofensa aos valores cívicos e éticos. «Cada um é livre de exprimir as suas ideias...», frisou. Pois como qualquer estadista contemporâneo, sabe que é através da «democracia cultural» que surgiu o Iluminismo invertendo o «dogmatismo». Será o Alto Mandatário consciente dalgum «dogmatismo» no Ministério da Cultura? O seu discurso revela-se elegante e isento ao choque, mais não deixa de ser, na minha leitura filosofica, uma reação perante o que «deve se reparar» no referido Ministério.
 
Se é impensável e difícil viver isolado duma sociedade homogênea, a vida em sociedade heterogênea parece complexa e mais complicada ainda. O Homem como o «ser pensante» é gerido pelo «egoismo natural» que nem a socialização espontânea, nem tão pouco a socialização sistematizada consegue curá-lo. É-lhe preciso a consciência desse vício passivo para depois arrependimento. Aliás, logo no início do seu discurso, o Alto Mandatário Angolano deu excelente lição – exemplo a seguir – ao reconhecer não ter anteriormente «dado maior atenção» de forma directa a Cultura. Contudo, o seu discurso fundamenta-se, acho-eu, num triânglo que chamou dosSantosino:
1)      Cogito, ergo sum: Penso, logo existo;
2)      Ciurque suum: Cada um e que é seu;
3)      De gustibus e coloris num disputadium: não se deve discutir o gosto nem as cores.
 
Réné Descartes lançou uma filosofia a partir de «cogito, ergo sum» e que mais tarde foi retomada e modelada em «existencialismo». O direito a vida, me parece bem explicado existencialistamente e o Presidente da República parece ter consciência disso ao dizer que «a Cultura é criada por um individuo...». Dai, tal como Ngôla Kilwângi defendeu os seus Homens na sua época, o actual Presidente Angolano defende culturalmente todo Angolano pondo como primeiro alicerce da democracia cultural o «Angolano livre» de se exprimir, de criar, de se manifestar, etc. desde que não ofenda a moral, a ética.
 
Em Direito Romano antigo, dizia-se «ciurque suum», isto é «cada um e que é seu». A expressão recomenda o respeito ao proximo. Para constituir uma Nação cada um deve aceitar o outro tal qual, dando sequência assim ao respeito mútuo. A «democracia cultural», caso a Cultura seja inicialmente o produto dum indivíduo, baseiar-se-á obviamente no respeito mútuo quer na expressão, na criatividade, na manifestação, etc. Ou como dizem os Nyaneka, “enanthiya like kalinthiki mbiya”. Isto é, uma só pedra não pode sustentar a panela.
 
«De gustibus e coloris num disputuum»: não se deve discutir a respeito de gosto e cor, diz o adágio. Entre duas opiniões parentemente válidas mas opostas no mesmo tempo, esse adágio é declamado para apaziguar ambas opiniões, dando a cada uma alguma aceitação. Pois o discurso do Presidente Angolano evidencie os dois primeiros pontos que sublinhei para finalmente criar uma convergência paralela no terceiro, tal reza a velha tradição – consistente e cada vez mais contemporânea – de «razão trifacial»: a verdade é subjectiva, a razão é objectiva: a minha verdade, a sua, e a dele consituem a nossa razão. Belo repensar! É imprescindível definir ou forjar a «angolanidade» sem definir antes de mais o que é a «Cultura Contemporânea Angolana», cultura essa que é carimbada de kuduros, semba, R&B, Kilapanda, ou Langa, Mbailundu, Malajinhos, ou seja Branco, Preto ou Mulato, etc. Porque? Por simples razão que o «génio angolano» no momento em que encontramos não é exclusivamente elite, pois abrangente e participativa. Angolano é culturalmente «um tudo» das suas realidades arrosazoadas no tempo.
 
O Alto Mandatário aborda a «racionalização» ou seja «dinamização» da Cultura tendo em conta as aculturações sofridas, suas consequências e inerências, as realidades e pseudo-realidades angolanas, mas a sua preocupação assenta na harmonização de «quanto tudo» para a Angola de hoje face aos desafios actuais universais. Tal gesto se traduz correctamente em alemão por "aufklarung": (trempolim de) aclaração. É óbvio que «do choque das ideias acende a Luz», pois é o que foi discursado de forma humildemente clára para quem «tem ouvidos» : democracia cultural. Com isso caiu ou está caindo o «Murro da Cultura» delimitador e excluidor, estando largamente aberta ou a ser aberta a passagem mais abrangente que faz de qualquer Angolano parceiro directo para segurar o desenvolvimento Cultural, independentemente das padrões e/ou cânones definidos aqui ou acolá.. Logo o MiniCult deixa de ser monopolente, passando passivamente a uma equipolência ao lado da «sociedade civil» bem que ainda domina, sendo um orgão de Governo.
 
Face as descobertas científicas e as formações sofisticadas do Homem de hoje, nota-se de que este último torna-se cada vez mais rebelde em si prórpio assim como com seu próximo, directa ou indirectamente. A Era que vivemos, tal como os Astrofiles gostam de o dizer, pertence a «Era de Peixes», Era da Verdade Generalizada. Todo mundo sabe qualquer coisa. «Excluir» torna-se porém um pecado intolerável. A participatividade já faz parte dos onze Mandamentos da edificação das nações modernas. E dado que toda Nação se funda antropologicamente, propõe a «democracia cultural». Sobretudo não se pode perder de vista que Angola é mais vasto do que simples Luanda (sic!): pois 1.246.700Km2
 
Será possivel aplicar isso na Cultura em Angola? «Makûkwa matatu» dizem os Kôngo; “enanthiya like kalinthiki mbiya”fazem os Nyaneka; os Cokwe dizem «kuteta kasangula; itfundu kuy laka»( uma divisão injusta não beneficia a todos); os Kimbundu dizem Lukala zau, mukila zau (atravessaste o rio Lukala, a sua cauda atravessa também: isto é ninguém será feliz sem o convívio dos outros). Isso prova que a «democracia (cultural)» já era modus operandi angolano antes da descoberta portuguesa. E porque não continuar a assim ser?
 
O discurso jovial e dinâmico do Presidente da República se resumiria dessa outra forma, creio eu: Que haja Bienais e Trienais! Que surgem Festivais para promoção da Cultura! Que os pensadores se manifestam com as suas ideias ou seus «ismos» a favor do valor humanista! Que hajam mais «elementos» para o progresso e presênccia do Angolano Cultural dentro das Civilizações Modernas! E insiste a não chocar os valores éticos, nem violar o Direito. Também, apela a participação activa da sociedade civil, e não exclusivamente estatal. Porquanto é apartir daí que será melhor interpretada a «democracia cultural». Pois não somente tem diamante petróleo. A verdadeira riqueza é o homem. Esse deve ser um homem culto e com Cultura! Por isso quebra-se a monocultucracia dando lugar ao «pluralismo cultural».
 
Pois é assim que eu entendi o discurso, e pensei partilhar com público.
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