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Kongo-Umbundu, afinidades?

Afinidades Kôngo-Umbundu
 
«Quando nomeio o objecto cadeira, estou a referir-me a todas cadeiras às que existem na minha casa, mas também às cadeiras do restaurante ou da igreja, às de agora ou às do passado, às ricamente trabalhada ou às mais simples e humildes». O que indica que as palavras são arbitrárias e convencionais, logo não mentem em si e são documentos históricos por excelência.
 
BANAL: Conforme o Direito feudal, os habitantes dum mesmo Senhorio foram obrigados a utilizar a moagem, forno, lavador, … do Senhor-Chefe, consoante uma licença. Estes objectos então foram chamados “forno banal”, “moagem banal”, “lavador banal”, etc. porque designados de maneira precisa pelo um BAN. Isto é «proclamação política». Como todo mundo se direcionava para lá, a palavra «banal» foi retomado em XVIII século nos sentidos de «comum», «utilizado por todos», «sem originaliade».
 
Falamos pois de três títulos administrativos Mbùndu. Na linguagem de Joseph Miller, estes títulos não somente concernem aos Umbùndu, mas também aos Kimbùndu. Vamos tentar colocar os sentidos Kôngo ao lado afim de favorecer o leitor um julgamento livre: afinidades? Filiações? … Os dados vêm do livro “O poder politico Mbundu. O parentesco nos Umbundos”, escrito pelo Joseph Miller.
 
A) KOTA: Título Mbùndu, os velhotes duma linhagem, a quem são confiadas as posições titulares de linhagem; são os dignitários da Corte servindo o rei, sendo eles constantemente eleitores das autoridades reais.
 
Em Umbùndu, as raízes são: 1) Kòta: adquerir, guardar, 2) Kòta: acabar, terminar, dar fim a, 3) Kòta: exorcizar, expulsar o espírito ou o demónio duma doença.
 
Em kikôngo, Kõta vem de: 1) Kôta: engajar a, impedir uma batalha, pôr obstáculo, 2) Kôta: custar, valorizar junto, 3) Kôta: exortar, advertir, persuadir, 4) Khôta no Mayômbe significa RESPONSABILIDADE.
 
Conforme aos sentidos acima enumerados, os «Makhôta» pertencem na linhagem dos Nsâku Ne Vûnda, linhagem dos Sacerdotes que consagrem as Autoridades logo a eleição ( Randels W.R., L’ancien royaume du Congo des origines au XIX e siecle, p.40). Em 1791-1795, Raimundo Da Dicomano nota que “cada Senhor-Chefe de Bânza (capital) e libâta (aldeia) possuía um MACOTA (velhote conselheiro), ou idoso chamado MANI PÊMBA ou Justiceiro - Major. Quando surge qualquer dificuldade entre o povo, é a pessoa indicada que examina a causa, logo põe as duas partes em acordo” (Jadin L., “Relations sur le Congo du Pere Raimundo Dicomano” in Bulletin des Seances de l’ARSC, T. III, fasc. 2, p.330).
 
Pois, os sentidos Umbùndu e Kikôngo complementam-se mutuamente. Exorcizar, por exemplo, que é Umbundu, confirma que os Makôta (Kôngo) foram realmente MANI PÊMBA assim como reza a Tradição. Isto é membro da família dos Nsâku Ne Vunda. EXORCIZAR era um dos atributos das funções dos Nsâku na sociedade Kôngo antiga (Cuvelier J., Nkutam’a mvila za makanda mu nsi’a Kôngo, Tumba, 1972, ver Nsaku, Ntûmb’a Mvêmba).
 
B) KILÂMBA: Título dos reis Pende (como sub-grupo Ovimbundu) que governavam antes a chegada dos IMBÂNGALA.
 
O radical é lâmba que segundo Alves é o nome dado a uma pessoa amável, querida, bondosa, simpática( Cfr. Seu «Dicionário etimológica mbunda, p.465). Em kikôngo lâmba é transitivo que para além de significar estender-se, alargar-se, quer dizer também «durar muito tempo». O mesmo verbo significa pensar, reflectir profundamente, meditar. Hàmba cujo kàmba é variante, significa a mesma coisa em Kimbùndu (Cfr. O dicionário Kikongo-Kimbúndu de Maia).
 
Não é estupefacto que «Kilâmba» venha a significar “uma pessoa amável” porque, tal como o sustentou Jan Vansina, na era de fundação dos reinos bantu, a «amizade» estaria na base de «groupamento» das populações. LÙNDA por exemplo quer dizer «amizade» faz observar o autor (também Duysters, Dennis, Carvalho, etc.).
 
O sentido de «durar muito tempo» é próprio da noção de autoridade numa parte dos bantu (Obenga Th., Les Bantu. Peuples/cultures/langues, Présence Africaine, Paris, 1985, p.109): o princípio do poder baseia-se no sangue duma família derivado do ancestral principal. Nos Kôngo, somente os Nzînga podiam governar antes da descoberta pelo Diogo Cão. Nzîng’a Nkûwu por exemplo. A palavra Nzînga vem do verbo zînga: viver muito tempo, durar muito tempo, persistir durante muito tempo, etc. E foram eles as elites[1] das migrações. Denise Paulme, mais atrás, numa citação que fizemos escrevia: «as migrações sob conduta dos membros da família reais» ( Paulme D., Les civilisations africianes, Que sais-je?, p.34)
 
O sentido de «meditar», «refletir». Em kikôngo, «mfûmu» significa «autoridade», «chefe». Deriva portanto de fûmuna, isto é sentar-se com a mão sustentando o queixo, ou bochecha; meditar, reflectir, fazer exame da consciência, pensar, etc.
 
O título «Kilamba», lemos atrás, é herança Mbùndu na parte dos Pende, “antes os IMBANGALA”. Os Pende dizem que os ancestrais são cidadãos de IMBÂNGALA (MPÂSI) ou Kôngo-dya-MBÂNGALA No século 19 H.A. Carvalho esteve nas terras dos Alùnda e nas suas pesquisas passou a investigar os Ovimbùndu como sub-grupo dos Alunda (Cfr. Etnografia e História tradicional dos povos Lunda, Lisboa, 1890,pp.58-78). Duysters não só fala dos Alunda mas também dos Imbângala como um dos sub-grupos Lunda. (Cfr. “Histoire des Alunda” in Problemes d’Afrique Central #40, pp.81-86).Geralmente os Kôngo dizem «Kuna Mbângala atûkidi ambûta» quer dizr são originários de Mbângala. Lamal faz entender na sua obra sobre os Ba-Sûku e as populações de Kwângu-Kasayi que são povos aparentados.
 
C) LUKANO: bracelete lùnda; símbolo da autoridade real, escreve Joseph Miller. No século XVIII, os Europeus que estão a compôr as lexicografias notam que em Mbùndu. Bracelete traduz-se em ma-lùnga (Anonimo, Pequeno arte contendo algumas regras necessárias para o estudo, pp.99 ). Adriano Barbosa assinala: ma-lùnga, lùnga entre os Cokwe (Cfr. Dicionário Cokwe-Portugues, Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa) e Alves lùnga para qualquer bracelete como jóia. Ambos autores sublinham que o mesmo objecto se chama «lukano» quando é insígnia do poder. Neste caso o que significaria então a palavra?
 
Em Umbùndu como em Côkwe recolhemos os mesmos sentidos: um problema duvidoso, um processo, uma resolução (a um crime, premissa, decisão (de um defunto) …” (Cfr. Dicionarios de Alves, Valente, Barbosa). Em kikôngo, nkânu significa coisa, problema, problema duvidoso, julgamento, processo, algo que trago perseguições, crime[2]. Isto demostra que apesar das palavras não só falar, são documentos históricos por execlência, obriga-nos a aceitar o ponto de vista que fornecem. E a Lógica como «ciência de palavras» - também significa «ciência do pensamento» - põe em paralelo o acto mental e o objecto além de impossibilitar a separação entre o pensar e a linguagem. E entre o pensar Kôngo-Umbûndu e a realidade exprimida ao objecto existente na qual ambos se referem, tudo indica que a subsistência semântica teria sida sincronicamente a mesma.
Pois isso autoriza-nos dizer que as «palavras» acima referidas (A, B e C) são portadoras das significações que indicam uma concepão formada a partir das realidades vividas em conjunto, não obstante interpretadas de forma convergente. Quer com isso dizer que as «mentes» desses grupos etnolinguísticos imortalizam uma realidade histórica: os Kôngo e Umbúndu teriam numa certa época imemorial coabitado como um só povo.


[1] «Éclaireur» em francês, o mostrador de caminho.
[2] Laman KE, Dictionnaire kikôngo-français, p.711, Carbera Lydia, vocabulário Congo, Miami, Ediciones Universal, 1984; Swartenbroeckx P., Dictionnaire kikôngo-kituba-français, Bandundu, CEEBA Publications, 1973.
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