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Pensar África

PENSAR A AFRICA
 
Patrício Batsîkama, Filósofo & Historiador de Arte.
 
I. Da temática
Em principio todo mundo é facultado de pensar. Até um demente ainda pode pensar. Portanto, coloca-se a preocupação no «como pensar de forma ordenada, relativamente correcto… para formular argumentos».
 
Conhecemos o mundo através de cinco sentidos como aparelhos identificadores e o nosso «pensar» baseia-se nas informações recolhidas por esses sentidos. E ao formular «argumentos» a nossa alma (cultura) condiciona a nossa expressão.
 
Os jovens aqui intervenientes e por sinal perspicazes nas suas expressões artísticas – entre eles Mawete Lazaro, Silva Mudilu, Paulo Bem-vindo, Chey Pedro e Antonio Toko sob animação artística de Mateus Kembo – reúnem nesta exposição colectiva obras que se resumem num slogan: «Pensar a Africa». Arte sendo uma forma de comunicar, esses jovens retratam as problemáticas do seu continente. Assim por exemplo Mawete Lazaro através do seu «Africano Hoje» com um cromatismo avermelhado contudo relativo a seu continente; Paulo Bem-vindo com seu «Futuro Confuso» numa pigmentação quente e saturada pela composição; Silva Mudilu com «Desequilíbrio», tendo além da saturação e agressão dos elementos, um tom enérgico; etc.
 
É artista quando denuncia os erros e sobretudo propõe melhoria. «Dores de Parto» do Mawete alvitra que os Africanos se integram na Globalização; Paulo Bem-vindo sugere «Trabalho e Colheita» como forma de enfrentar os desafios actuais; Silva Mudilu propõe «Força da Industria» acreditando que a industrialização seria uma aposta conveniente; quanto a Chey Pedro, «Amor» basta para endireitar as linhas gerais etc. E os jovens – cientes disso – pretendem através as suas proposições PENSAR A AFRICA.
 
Numa primeira olhada são iniciados não só nas pinceladas, mas também discípulos do Artista plástico Etona, e aderentes ao «etonismo» que é uma filosofia que luta contra a discriminação das ideias, de género, racismo, e eles querem tentam evidenciar a confirmação do «Africano como um Ser Capaz» produtor e não somente consumidor.
 
África quer dizer «sem frio», «ventos quentes», etc. Literalmente todas pinturas aqui exibidas retratam esse «sem frio», «ventos quentes» numa diversidade de convicções. A liberdade expressa empolga qualquer espectador a consentir o labor artístico; apesar de incongruências estéticas para uniformizar a verdadeira rixa que se pretende logo no entender do slogan, dum lado e de outra, a quase inapercebida ausência duma pluralidade filosoficamente lateral em congruência com o slogan, essa exposição orgulhar-se-á de depreender relativamente a África Hoje, especialmente nas problemáticas da juventude, na lentidão da consciencialização, na criação e enriquecimento da cultura – temas que são abordadas com mais veemência.
 
Isto é, chamem os seus compatriotas a redefinição, a reinvestigação e a reclassificação das coisas para ter um visual moderno, adaptado aos desafios actuais. Quer governantes como governados, isto é a mensagem que a linguagem pictórica transmite.
 
Que bom de ver expressos os problemas ultra-angolanos. De facto, o artista não se limita a sua região onde é natural. Será confundido com artesão, uma vez que o artesanato é artefacto ligado a uma região dada, explicam as lexicografias. Arte não tem fronteira, penetra um mosaico infinito de preocupações humanas nas quais sugere soluções. É por isso que ela permanece quando o povo desaparece; é por isso ainda que fala mais alto em nome do seu inventor mesmo na ausência deste. Portanto, o Artista não deixa de ser Angolano, Português, Argentino, etc. Pois é a sua obra que não tem nacionalidade nem limite sequer. Porem, esse grupo de jovens parece consciente disso, logo têm as portas abertas para desembocar e caminhar nesse roteiro demorada e dificilmente alcançável que é a Arte no seu verdadeiro sentido
 
 
II. Na Conquista das estéticas
 
A estética é a alma duma obra. «Aesthetis» significava consoante Aleksander Baumgarten a percepção e a sensibilidade numa diacronia objectivo/subjectivo. Em princípio, alguns trabalhos são baseados na filosofia do etonismo: assim por exemplo veremos pessoas sem rosto. O que significa que Africa precisa ainda de reconstruir o seu rosto, isto é ter uma visão (olhos), discernimento (nariz), bem examinar e distinguir (gosto, palpar), entender e aprender bem (orelhas), etc. Alias o conjunto das obras sustenta isso.
 
Nota-se de igual modo, a vontade fervente de cada um tentar expressar a seu gosto alguns motivos estéticos soltos, e que a força de exercícios, poderão constituir padrões estéticos. Para isso deverão eles «faire l’école», isto é empregar a uma experiência extensa!
 
É obvio que os jovens aqui reunidos pareçam determinados para isso. No dia de Africa, 25 de Maio, Mawete auxiliou o artista Etona no manifesto a favor de Africa. Numa das conversações com os estudantes da Universidade Lusíadas, frisou que «se as pirâmides testemunham que os seus artistas eram de grande valor estético, e que Egipto antigo é prova de que o seu povo era produtor, porque se fazer hoje em dia de simples consumidor? Não vejo nada que impede que o Africano hoje deixa de ser simples consumidor e engajar uma luta de produtor…». E na tela intitulada «Africano Hoje» podemos ler as intenções expressas. Paulo Bem-vindo, de modo igual, participou numa exposição colectiva da Brigada dos Jovens alusivo a esse dia. Na sua tela «Futuro Confuso» expressa as semelhantes intenções, etc. Com isso quer simplesmente dizer que esses jovens já ingressaram nessa luta. Oxalá que cheguem, cada um a sua linha, determinar padrões estéticos. Por isso eles precisam trabalhar com mais rigorosidade e grande disciplina!
 
É arte quando tem função (social, terapêutico, religiosa, etc.). De outra forma será uma fantasia morta e sem graça. Será o conjunto dessas obras possuidoras de alguma função, o que levou F. Engels dizer que «arte é antes de tudo uma filosofia». No entanto, a participação de alguns expositores no Manifesto a favor do Dia de Africa, com algumas sugestões indicam que não são apenas simples técnicos, mas também querem se identificar na melhoria do Africano usando as suas obras nas criações das novas realidades que acham propícias.
 
O valor estético está condicionado no triângulo regras da Arte, Leis do Belo e código do gosto. Em relação as obras expostas, notamos duas estéticas contínuas: idealista e critica. Leo Tolstoi, ao tentar definir a Arte faz entender que existe impressões que o autor não expressa. As regras da Arte são estruturalmente definidas embora dinâmicas. Os códigos do gosto são legislados pela vivência entre homens e variam sem grandes elasticidade estrutural, se multiplicam de sociedade a sociedade. E, nessa Era da Globalização, os códigos se uniformizam petit-petit. As leis do belo portanto são infinitas, variáveis, dinâmicas e extremamente irreduzíveis.
 
Se formos atento ao abordar cada obra exibida, encontramos as tendências diferentes mas convergentes dum lado, e de outro, uma convergência paralela de código de gostos. No entanto, uma vez que utilizam as leis do belo compatíveis a seu objectivo (Pensar a África), ocorrem porém duas linhas gerais: estética idealista e critica.
 
A estética crítica. O artista, tal como qualquer indivíduo, é produto da Cultura onde é nascido, crescido e onde se identifique socialmente. Portanto ele cria novas propostas para a dinâmica da mesma cultura. Ali está a essência do belo. Imaginemos a água. Ela é bela porque mata a sede, satisfaz perante o calor, etc. Ora, a tempestade é causada pela água, assim como a cheia que aterroriza as casas. Nos ambos casos, água continua bela. Os jovens talentosos que aqui expressam suas variadas tendências abordam o seu continente em duas versões: do lado bom como do lado mal aconselham melhoria inerente àquilo que são. Isto é, adoptam a estética critica.
 
 
 
III. A busca de uma crítica construtiva
Percorrendo a temática que cada um aborda na sua obra, notamos uma tentativa de redefinição. Mawete crê – com seu «Africano Hoje» – que o Africano continua ainda escravo, e não culpabiliza o neocolonialismo que seria a sua causa. «Como no campo de futebol, cada um se esforça de marcar o golo. Quem ganha se preocupa conservar o título e quem perder vai multiplicar os esforços para melhorar onde falhou», frisou.
 
A sua vez, Mudilu vê um «Desequilíbrio» em Africa. Na saturação dos elementos, vemos um homem figurado acima de um outro; as riquezas acima de ser humano, e a liberdade retratada em cabeça de ave indicam uma democracia (liberdade) totalitarista que se vê em Africa. E propõe na redefinição que seja composta uma visão «olhar solitário».
 
A sua vez, Paulo Bem-Vindo observa quanto África está sem leme: «Futuro Confuso». Retratado em embriaguez que – psicologicamente – é o estado inconsciente do indivíduo, o seu autor crê que Africa está inconsciente. E adverte que seja recuperado o tempo perdido ao risco de um futuro espantosamente indefinido: «Afinal!?». Amante de música que é seu passatempo, acredita que enquanto existir irmandade entre os Africanos – ou qualquer povo – maior será o fruto da convivência.
 
O que mais admira nesse grupo de jovens, estão convictos de que existe ainda esperança por África possuir capacidades para melhor fazer.
 
Liso liafua, tfulo muali, diz um provérbio Angolano (Cokwe). Tradução literal: o olho cego, mas o sonho continua. Quer dizer com isso «perdi a minha fortuna, mas continuo a viver». Isto é, apesar da derrota que os Jovens reconhecem para o seu continente, acreditam que a situação poderá melhorar uma vez que os seus projectos intelectuais aqui referenciados e de tantos outros com visão foram tidos em conta, desenvolvidos, enquadrados e bem sistematizados.
 
 
AS OBRAS EXPOSTAS
  1. Julgamento do Inoncente, 111x70cm (Acrílico/tela), Mawete
  2. Futuro em crise, 111x60cm (Acrílico/tela), Mawete
  3. Pricncípio dn Filosofia, 11x68cm (Acrílico/tela), Mawete
  4. Contraste, 92x51cm (Acrílico/tela), Mudilu
  5. Riqueza incompreensível, 82x50cm, (Acrílico/tela), Mudilu
  6. Força da Industria, 90x49cm, (Oleo/tela), Mudilu
  7. Globalização ou Globalizados?, 71x53cm, (Acrilíco/tela), Mawete
  8. Sede da Inteligência Cega, 66x82cm, (Acrílico/tela), Mawete
  9. O começo Africano, 63x84cm, (Acrílico/tela), Mawete
  10. Sede de Viver, 87x75, (Acrílico/tela), Paulo Bemvindo
  11. Afeto, 100x73cm, (Acrílico/tela), Paulo Bemvindo
  12. O Álvo, 86x44cm, (Acrílico/tela), Paulo Bemvindo
  13. Sonho do Mudo, 44x54cm, (Oleo/tela), Paulo Bemvindo
  14. O vaso, 67x55cm, (Oleo/tela), Paulo Bemvindo
  15. Nostalgias, 112x86cm, (Acrílico/tela), Mawete
  16. Era uma vez?,  61x79cm, (Oleo/tela), Mudilu
  17. Desequilibrio, 104x74cm, (Oleo/tela), Mudilu
  18. Abundância, 46x71cm, (Acrílico/tela), Mudilu
  19. Reencontro falhado, 90x66cm, (Oleo/tela), Mudilu
  20. Mensagem Internacional, 105x74xm, (Oleo/tela), Chey
  21. Eu e Tu, 100x7cm, (Oleo/tela), Chey
  22. Homem em busca de Deus, 110x82cm, (Oleo/tela), Chey
  23. Afinal!?, 101x73cm, (Acrílico/tela), Paulo Bemvindo
  24. Olhar Solitário, 66x89cm, (Acrílico/tela), Mudilu
  25. Africano Hoje, 116x92cm, (Mixta), Mawete
  26. Identidade, 120x94cm, (Acrílico/tela), Mawete
  27. O antigo face ao moderno, 120x65cm, (Acrílico/tela), Mawete
  28. A procuro do que?, 90x69cm, (Acrílico/tela), Mawete
  29. Dores de Parto, 93x70cm, (Acrílico/tela), Mawete
  30. Porquê?, 29x39cm, (Oleo/tela), Mawete
 
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