Afinal o quê é que Etonismo criou de novo?
Patrício Batsîkama
Somos diaramente confrontado no caminho para explicar o etonismo, mas ultimamente, uma dúpla pergunta surgiu da classe artística e dos amigos profissionais: «o quê é que de concreto o etonismo criou de novo?». Essa pergunta leva com ela uma gémea: «como será possível falar de etonismo, enquanto viteixismo, malangatanismo, etc. ainda não existem... não será alguma precispiatção?».
É muito preocupante que «etonismo» integram os diálogos aporéticos desdes as ruas de musseques até lugares apropriados de debate como Universidades, Assembleia Nacional, etc. Sem pretender satisfazer todos os leitores cuja interiorização pode eventualmente ser preconcetual ou liberal, vamos tentar aqui agradar simplesmente a ciência, comecçando por definições.
Etonismo é a inclusão «sem choque» de três razões oriundas de fontes diamatralmente distinctas cuja coalição se fundamenta essencialmente nas suas alegações mútuas, e sucessivamente, pela indulgência de forma que a razão mais forte tolera a pseudo-razão. Artisticamente é «luta contra racismo, tribalismo, discriminação de género, ideias, etc.». O termo vem do antropónimo «Etona».
O que é uma criação? Somente a Estética responde melhor a essa pergunta. A História de Arte nunca foi a ciência que teoriza a Arte. A ciência da Arte é Estética tal como inventou-a Alksander Baumgarten. A História baseia-se na «longa duração», logo precisa de uma justificação no tempo, enquanto a Estética necessita a sua essência contemporanea. Por isso ambas definem a criação de forma diferente embora convergente.
Assim sendo, o quê é «criação» na Estética, Filosofia e História (da Arte).
Estéticamente, a criação/arte é agremiação da personalidade intrinseca e do imaginar extrinseco: sensibilidade (que é subjectiva) em relação estreita com a percepção (que é objectiva), cujo corpo final, sua materialização, reune elementos apropriados. Aliás, os Judeus tal como os Bantu acreditam que Deus é criador do Homem (criação), e por isso antropomorfizam esse Ser Supremo. Razão pela qual apesar da existência humana, o recém-nascido é sempre tido como uma nova pessoa (criação) levando algumas caracterisitcas e certos carácteres oriundos dos seus país. Logo, qualquer obra de arte quer ela pintura, escultura, música, dança, fotografia respondem aos caprichos do seu criador, levando assim (numa «leitura psicológica de arte») a personalidade do seu criador. É por essa razão que uma criação deve ser exótica, sem icto da nacionalidade do seu criador: deve ela ser criação em qualquer parte do globo ao mesmo tempo. O ciador tem nacionalidade, pois não a criação. No entanto a psicologia da arte reconhece a identidade e personaliade do criador na sua obra.
Filosóficamente, a criação é conjunto de valores que evidencie alguma particularidade formal-conceptual (pensamento) singular na sua arumação, sistematização e actuação. Do Socrates vem o classicismo (que de acordo com alguns filósofos seria socratismo); do seu discíplo Platão surgiu platonismo; do Aristotéles disciplo deste surgiu aristolelismo; etc. Filosoficamente um e outro difere de apresentação do pensamento, sua arumação, sistematização e sua actuação. Eis a razão pela qual existiu Marxismo, Leninismo, Stalinismo. Aliás em 2002, escrevemos na nossa monografia: «…Cokwe and Kôngo sculpture’s Throught show us the different and anonymous artists (Thinkers), … and yet, we can organize their evolution in spite of their simultaneousness… and finally classify each them relatively» (p.57). Isto é, falando das esculturas Côkwe e Kôngo, nota-se que seus criadores estão intimamente ligados uns aos outros sucessivamente. O caso de Platão explicita isso tal como no seu estudo «Plato’s Throught in the Making» plublicado pela Cambidge University Press, Raven J. mostra que na «República» encontramos «Socratismo» (Livro I), «Platonismo» (Livo II-IX) e as primeiras alicerces de «Aristoletismo» (Livro X).
Historicamente, a criação pode ser considerada o ponto culminante dum periodo que decidamente (formalmente) marca a ruptura, dando sequência a um outro periodo. Os Historiadores dividem o tempo histórico a partir das descobertas do Homem (criação): a Escrita por exemplo marca a separação entre Pre-História e a História. A hominização por exemplo separa Australopithecus do Homo Habilis, este do Homo Erectus e este do Homo Sapiens não somente a partir duma simples teoria baseada em estudo dos ossos. A arqueologia explica forçosamente as rupturas tecnicas (formais) e intelectuais (conceptuais). Outrossim, de nomadismo ao sedantarismo não só o homem evolui arquitetónicamente, mas também de ponto de vista o seu pensar. O princípio do sedantarimo é o ponto culminante das experiências da vida nómada, e é somente através deste que se resume a «criação/invenção»: agricultura (dominando as águas de rios e mais tarde com sistema de canalização). Pois, seria impróprio um Historiador afirmar que o nomadismo adâmico desconhecia a «agricultura», apesar da criação ser marcada pela «cultura da terra».
Será neste caso o etonismo uma criação estética, filosófica e historicamente?
Estéticamente.
Abolicionismo é uma das luta contra não somente a escravatura, mas também contra o racismo. Ainda existe nele um «feu-vert» para ser também uma luta contra o tribalismo e qualquer outra discriminação. Arte é tida geralmente como o «campo sem limite» de actuar. Somente por isso que Música, Dança, Teatro, etc. utilizaram racismo/tribalismo/discriminação como temas de atenção. Pouco entre eles criaram ou criam uma «relação lógica», de acordo com os estudos existentes até hoje em dia, e se existissem algumas «relações lógicas», a do «etonismo» se particulariza pela «tri-tratamento escultórico e tri-tonalidade pictural» que se conjugam com a personalidade do Artista e a «personalidade social» do país donde é oriundo: pois, isso é «criação». Dai a justificação do sufixo «ismo» que literalmente significa: «conjunto sistematizado ou teorizado de principios, ou coisas». A «morfos» e o «conceptō» em congruência com «théma» que apresenta o «etonismo» nas Artes Plásticas ossaturam um «quadro lógico» que sistematiza a filosofia da razão tolerante.
Em Angola, especificamente, o quê é que «etonismo» traz de novo? O etonismo é uma proposta de «teorizar» a Arte em Angola, criar discrempância entre «arte» e «artesanato» ou melhor cientificar, sistematizar a Arte; é uma proposta de prevenção e salvaguarda do património contemporâneo através duma socialização (ensino dos Artistas no Ensino Geral). Ensinar Miguel Angelo, Pablo Picasso, Matisse, etc. é muito interessante. Mas ensinar António Gonga, Rui de Matos, Kidá, etc. é salvaguardar não só o património contemporâneo angolano, mas sobretudo um meio eficiente para internacionalização e participação activa e condigna na Globalização.
Filosoficamente.
A arte é antes de mais filosofia, diria Hegel. Existe uma particularidade que gostaria de sublinhar no «etonismo», que é a filosofia da razão tolerante que consite a inclusão «sem choque» de três razões oriundas de fontes diamatralmente distinctas cuja coalição se fundamenta essencialmente nas suas alegações mútuas, e sucessivamente, pela indulgência de forma que a razão mais forte tolera a pseudo-razão. Angola já deu prova disso: o plano do Governo angolano assenta na interindependência e na comparticipação políticas dos vencedores (nesse caso Governo), vencidos (UNITA militarista) e observadores (outros partidos políticos). Dai, não há vencedor no sentido estricto do termo. Não só a «teknikós» do artista plastico angolano evidencie alguma particularidade formal-conceptual (pensamento) singular na sua arumação, sistematização e actuação, mas sobretudo, se justifique na actualidade social angolana, servindo ao mesmo tempo de modelo para futuro.
Históricamente
A criação/invenção se justifica na «longue durée», de acordo com a História. É importante dizer que aquilo que chamamos «etonismo» não se limita nos dois anos e quatro meses da nossa «pesquisa» sobre a obra do Etona e a sociedade onde integra. Desde a sua primeira exposição individual em 1991, as bases já foram lançadas. Em 2005, foi apenas o «primeiro» ponto culminante que teria alcançado o «étonismo» artisticamente. Tal facto confunde-se com a própria História Contemporânea de Angola onde o Artista integra. O «etonismo» é formalmente apresentado em Dakar, Paris e Luanda num «periodo» que historiograficamente parafrasea as épocas que levaram os Angolanos a estabelecer e enraizar as bases da Reconciliação Nacional: (2002-2006). Dois eventos se confundem com ele: 1) a filosofia da Reconciliação Nacional se revê na filosofia do «etonismo»; 2) a condecoração do Etona pelo Alto Mandatário de Angola vem reforçar isso e interpretar-se-á convergentemente com «etonismo».
É muito provável que os futuros Historiadores sejam naturalmente forçados pelos cânones cientificos inerentes a sua especialidade de comparar «etonismo» com a época rupturesca, referência (obrigatória?) para alguma «cientificação da Arte», antes da formação superior, sitmatização e museologização da Arte Contemporânea em Angola. Duas simples razões nos permitem hipotecar isso sem medo de errar: 1) razão estética e filosófica supramencionadas (infra); 2) princípios cronológicos da História: eventos remarcáveis (Condecoração, por exemplo), ruptura historico-epistemológica (relacionada com a Reconciliação Nacional de Angola), etc.
Etonismo e escultura Moçambicana
Alguns conhecedores da morfologia escultórica em África contre-argumenta que a escultura etoninana teria copiado a escultura chissaniana. De facto, não se pode negar essa grande aproximação. Chissano – já falecido (que a sua alma descança em Paz) – combinava:
1) tratamento bruto; 2) forma natural; 3) tratamento liso.
Enquanto Etona combina:
1) tratamento bruto; 2) deformação da matéria causada pelos insectos ou queimação (antes do escultor adquiri-la); 3) tratamento liso.
De ponto de vista o conteúdo, Etonismo relaciona as três verdades subjectivas numa só «relação lógica» criando assim uma «filosofia de razão tolerante». É óbvio que difere de «art’s thougth» de Chissano dado que o «etonismo» já é uma filosofia relativamente com a «ossatura prórpia». A respeito de Chissano, Clark Friedman insiste sobre a falta da sua teorização que ele acha «muito possível» («downright possible», escreve) desde que exista especialiasta para o efeito.
Na verdade, existe desigualdade diametral entre Etona e Chissano, inicialmente na morfometria. O ponto dois prova-lo. Apesar de aproximação de dois outros pontos, insistimos na sua dualidade: a água de rio e a de mar são diferentes porque a primeira é doce e o último salgada. Ora continua água para qualquer indivíduo, pois não para o químico que insistirá na sua «distinção orgânica». Isto é, de ponto de vista a forma, Etona e Chissano são duas «artes» diferentes. E falando de «conceptō», a divergência é cada vez larga e gradualmente distinta.
Ambiguidades?
Precisamos de Faculdade de Filosofia/Estética ou História de Arte para aprovar ou reprovar essa tese. Seria falta de responsabilidade que o destino ou fecho dessa investigação (sobre etonismo) seja sancionado aberrativamente 1) por incompatibilidade da realidade angolana em relação as ciências da Arte e sua teorização; 2) por questões nebulosas/subjectivas quer na parte dos sancionadores ilegítimos tanto como da classe artística inorganizada, dado que posteriormente, com as condições estruturais e institucionais criadas surgirão tantas outras classificações cujo modelo que sugere «etonismo» não será posta de lado, dado que responde rigorosamente as exigências científicas. O adágio latim adverte: «ad pænitedum properat, cito qui judicat»: quem julga com (mais) pressa, (mais) depressa se arrepende.
No entanto, as ambiguidades actuais a respeito do «etonismo» parecem dum lado o «feedback» em relação a inorganização de formados em matéria e a inoperação de Associações para o efeito. De outro lado, a ausência das instiuições científicas competentes e compatíveis para sua normalização e regularização. É muito comum ver Históriador cumprir papel do Filósofo e Educador da Arte assumir erradamente a teorização da arte. Pois isso causa sérios atropelos! «Tulomb’e ana kwa Nzâmbi, nzêngo ku Ngângula». Pedimos os filhos a Deus, e ao ferreiro a enxada: quer dizer, cada um na sua especialidade. Isso ainda não funciona correctamente em Angola, e dai explica-se as ambiguidades a volta de «etonismo» crescerem nos diálogos aporéticos.
Será alguma precipitação?
Como permitir que não exista viteixismo, nem malangatanismo derivados dos «mais consagrados» Viteix e Malangatana, e que se fala já do «etonismo» dum simples jovem?! Primeiro, isso depende do trabalho que cada um deles tenha feito. Segundo, a teorização já não é tabu! A estética tem por fim «teorizar» a arte. Qualquer estéta pode teorizar desde que hajam qualitativa e quantitativamente matérias, obras vivas, realizações marcadas na sociedade, contribuições que comprometem a participação da artista nas metamorfoses da sociedade directas ou indirectas, dentro como de fora; a comparticipação da sociedade a favor ou ao detrimento da sua arte, suas realizações, etc. e finalmente os motivos bibliográficos. Com isso será mais facil... Que surjam especialistas para estudar Viteix e outros. Seria isso, na minha óptica, o início da «desnebulização» porquanto vivemos no nebulismo nessa matéria apesar de algumas individualidades formadas. Isto é dum lado. De outro, será um sinal menos enganador para o desenvolvimento das «ciências de arte». De qualquer forma, salientamos que o «etonismo» ultrapassa largamente o artista Etona: bandeira nacional(!/?)
Ao nosso ver, não seria precipitação alguma, pois sim uma tentativa de recuperação dos atrasos que o nosso país (ou até continente) por uma e outra razão conhece. Se o «ismo» é banalmente preocupante por muito, científicamente é tão normal desde que a sua atribuição se enquadra dentro dos cânones (científicos). Esperemos que haja mais Faculdades e Cursos no país para permitir a teorização da Arte (Música, Artes Plásticas, Teatro, Dança, etc.) afim de explorar melhor o «suco científico» salvaguardando o património contemporâneo, e presenciar na Globalização não como inocente mas tendo específicas propostas (com «garras») nessa História actual decisiva.
Da Morte da Arte...
Quando eminentes filósofos declaram o «fim da Arte», e principalmente Arthur C. Danto, referem-se a rebeldia criada pelo cubismo, surealismo, etc. dissociando o sentido de «bellum», «moral», etc. que a uma dada época, a concepção helenica deu a «arte» e a sua «regulação lógica». Baumgarten, Kant, Schiller, Kierkegaard e Wittgestein duma e outra forma tentaram autonomizar cientificamente a «estética» mas com algumas debilidades para «arte moderna» começada por Picasso. Daí, o filósofo e crítico de Arte Arthur C. Danto anunciou o «fim da Arte». Será realmente o «fim da Arte»? Muitos especialistas divergem opiniões sobre a teorização da «arte moderna» que acham diferente em cânones estabelecidos pelos gregos nas suas teorizações. Com modernismo, a arte é banalizada e esvaziada! Tuda é arte, todos são Artistas! Desde então a «criação/arte» morreu!
Se arte é visível, notamo-la assim através de algumas condições. Pois devemos começar por balizar as «condições» daquilo que é visível. Daí, veremos que os Gregos tinham uma e os Egipcios outra forma de interpretar o que «é visível». Isto é antigamente. Como é óbvio, hoje cada um interpreta da sua maneira. A discrepância está nas «condições» de contemplar e não na própria arte. Portanto, como estabelcer «link» entre o modernismo que é uma nostalgia da presênça e a «arte antiga» (classicismo grego, por exemplo.) que é uma nostalgia da ausência. Daí, etonismo vem propôr o «recomeço» ou «resureição» da arte começando por «definição lógica» de arte, «definição descriptiva» do artista assim como – o que é mais importante ainda – «redefinir e revitalizar» os princípios, métodos da estética como «ciência autónoma».
Resumidamente
Estéticamente, etonismo propõe entre outros a teorização, o que poderá cientificamente redinamizar a modalidade; filosóficamente, ele aventa que toda arte não perca a sua essência (uma carga de filosofia), e se a angolanidade for uma ideologia, «etonismo» propõe a sua cientificação; e historicamente sugere facilitar a classificação conveniente e adequada dos periodos históricos da Arte em Angola em vez de recorrer sempre as periodizações incongruentes que nos estamos habituados: «... dos anos 70 ou 80, 90», etc. Tecnicamente, o Vereador da Cultura da Câmara da Amadora (Portugal) escreve na sua exposição «Marcas e Evidências»: etonismo «reflete a originalidade das pinturas e esculturas de Etona».
Contudo, «não é escândalo algum que, com a modernização e com a racionalização, a autonomização e a simultânea mercantilização crescente da arte (que não foi contrabalançada pelas vanguardas que, como no surrealismo ou mesmo com Mondrian, queriam reintegrá-la à vida, dissolvendo-a como arte autônoma ou “separada”) tenham culminado em algo como seu esvaziamento»[1], sua banalização ou seu fim: todos não são artistas e nunca assim foram! É nessa ordem que etonismo tenta reverter essa situação, devolvendo a «arte» o seu valor original e uma cientificação que a dada época e por razões circunstanciais, a História negou por causa de ruptura de interpretatividade.
[1] Bento Prado Jr. Ética e Estética, p.7